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O coração é um órgão simbólico. Ninguém até hoje soube explicar o por quê de carregar tanta expressividade metafórica através dos séculos. Face as suas funções fisiológicas vitais sempre foi temido e respeitado. Todos o tratam bem. Seguimos as recomendações médicas e acompanhamos as novidades ditadas pela Ciência contra os fatores patológicos, em benefício da máquina que nos mantém vivos. A partir de uma certa idade começa-se a anotar o nome de todos os remedinhos e chazinhos tiro-e-queda contra a pressão alta, recomendados pelos amigos. Antes a gente só guardava o número do telefone das meninas. Depois, o nome dos bons restaurantes. Quando a vida começa a rolar a ladeira as preocupações se concentram nas mínimas possibilidades de brecar a degringolada morro abaixo.
Quem sabe residam nesses fatos a explicação do coração ter sido transformado em repositório e gerador de tantas conotações psicológicas. Serviu e continua servindo de apelo universal aos poetas, aos dramaturgos, aos amantes e cronistas de todos os tempos. Nele concentra-se a idéia dos valores humanos: do amor, da bondade, da amizade, da virtude, da resignação, da pureza, da verdade, da gratidão, ou dos seus contrários: menosprezo, depreciação, ódio, indiferença, ingratidão. Fernando Pessoa tem um poema onde exalta a complexidade do órgão: “... E assim nas calas de roda gira, a enfrentar a razão/ Esse comboio de cordas. Que se chama coração”.
Pobre coração que se contorce nas coronárias dos dissabores da vida criados |
pelos conflitos interpessoais e intrapsíquicos... Os males da civilização nele se concentram. “É no coração que residem o princípio e o fim de todas as coisas” – assegurava Tolstói. Partem dele todas as atitudes, a direção dos comportamentos, a elaboração do destino. Sim! A partir do que representa para o indivíduo estrutura-se o seu destino. Todos os comportamentos sociais estão por ele, direta ou indiretamente afetados, pois nele concentra-se a afetividade. “O coração tem suas razões que a própria razão desconhece” (Pascal). É muita responsabilidade para um órgão só. Que peso extraordinário! Nem sei como agüenta... Daí a freqüência das patologias. Muitas vezes não suporta mesmo. Entra em fibrilações e pára. A alma se desprende e parte. Ariosto já se resignava dizendo que a gente vê o rosto, ouve o raciocínio do outro, mas “dentro do peito mal se pode julgar”. Só a partir de dentro do coração pode-se compreender a linguagem e decifrá-la. Quando um Renan Calheiros diz “sou inocente!”, ninguém sabe se ele, por dentro, ri ou chora. Mas, na verdade mente.
Mesmos os corações mais empedernidos um dia vão se abrir, nem que seja perante no dia do Juízo. Melhor fazê-lo em vida, aqui na terra, para que a Justiça nos seja leve quando do ajuste de contas. Só merece perdão quem se arrepende desde a profundeza da alma. “Um coração não se vende e não se compra, dá-se”, como disse Flaubert. Não é objeto de transação comercial, nem do poder. É símbolo da vida e do afeto. Mantenha-o aberto.
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